Tem confusão no céu da crença

 

TEM CONFUSÃO NO CÉU DA CRENÇA

 

 

Só se pode imaginar o momento em que o homem olhou pela primeira vez para o céu e se encantou com o que viu. Desde a Antiguidade, os homens olham para o céu noturno em busca de significados racionais e místicos. Agora, novas descobertas cosmológicas estão mexendo tanto com a Astronomia quanto com a Astrologia.

Apesar dos arqueólogos terem decifrado registros astronômicos feitos em argila há mais de 300 séculos, o fascínio, contudo, é mais antigo, coincidindo com a própria definição da condição humana. Esmagado pela imensidão do firmamento, em meio à escuridão absoluta de suas noites sem postes de luz, sem carros, sem casas ou prédios, o cérebro dos antepassados da humanidade tratou de tentar decifrar as estrelas. 

Aquela cobertura de sinais cintilantes de diversos tons, alguns fixos, outros móveis, não foi colocada ali por acaso e deveria estar querendo dizer algo muito valioso para a vida na terra  — bastaria descobrir como ler os sinais cósmicos.

Neste começo de século XXI, com todas as armas da racionalidade e da prontidão para as emoções trazidas pelo progresso material e espiritual, a humanidade ainda se deixa acachapar, magnetizar e intrigar pelas estrelas do céu noturno. Os astrônomos mandam naves equipadas com telescópios aos mais recônditos pontos do sistema solar e apontam seus instrumentos para todos os quadrantes, com resultados e imagens que produzem mais mistérios do que resolvem. 

 

DIREÇÕES OPOSTAS

 

A Astronomia e a Astrologia andaram de mãos dadas até a época do Renascimento, quando a primeira floresceu como ciência e a segunda passou a ser considerada uma crendice popular.

Relíquias da Idade do Bronze são os primeiros registros do interesse humano pelos astros. O “Disco Celeste de Nebra”, encontrado na Alemanha, mostra imagens do Sol, da Lua e das estrelas desenhadas em ouro.

Amparados em observações celestes, nos ciclos da agricultura e nas inundações do Rio Nilo, os egípcios criaram o calendário de 365 dias e 12 meses. 

Os babilônios criaram a primeira Tábua Astronômica, com o céu dividido em três setores de doze zonas cada um, e as primeiras compilações de estrelas. Esses estudos serviram de base para o zodíaco de doze signos.

Os romanos consideravam a Astrologia como uma ciência. Imperadores como Tibério, tomavam suas decisões baseados em conselhos de astrólogos.

O astrônomo grego Hiparco calculou o fenômeno da precessão, que é o movimento do eixo da Terra, que causa a impressão de que as estrelas mudam de posição no céu, o que derruba a ideia de que os signos do zodíaco são fixos. 

O Renascimento também põe em xeque a Astrologia. O matemático Nicolau Copérnico propõe o heliocentrismo, que posiciona o Sol no centro do universo. Isso entra em conflito com a postura astrológica de que o homem seria o centro de tudo e o cosmo funcionaria em função dele. Triunfa a ideia de que só é ciência o que pode ser comprovado por experiências. Cientistas como Galileu Galilei e Johannes Kepler contribuem para separar a Astrologia da Astronomia. 

 

POPULARIZAÇÃO DA ASTROLOGIA

 

A mente mística moderna dispensa tais argumentos científicos sob a alegação de que eles em nada enriquecem suas conclusões sobre o pisca-pisca celestial. Um em cada quatro americanos e metade dos franceses creem que sua vida é, em parte, regida pelos astros. No Brasil, uma enquete recente feita pela internet com 2.000 brasileiros revelou que 51% deles leem horóscopos diariamente e 37% acreditam que os astros influenciam destinos e apontam caminhos. 

A astróloga mais famosa do mundo, a americana Susan Miller, comanda um site de consultas astrais que recebe 18 milhões de acessos por mês, quase o dobro da audiência mensal do Twitter no Brasil. Esses números não tornam a crença menos crença, mas fazem do fenômeno um dado social que não pode ser simplesmente menosprezado ou desprezado. “Há mais mistérios entre o céu e a terra...”

 

CONFUSÃO NO CÉU DA CRENÇA

 

Duas semanas atrás, essa imensa comunidade de decifradores de astros tomou um choque. O astrônomo americano Parke Kunkle, professor do Minneapolis Community & Technical Center, veio a público afirmar que está errada a interpretação dos movimentos celestes usada pela Astrologia para determinar os signos de acordo com a data de nascimento das pessoas. Na prática, isso significa que muita gente pertence a um signo diferente daquele que sempre julgou pertencer. Para as mentes racionais, a revelação de Kunkle tem tanto valor quanto a afirmação de que os unicórnios eram azuis, e não pardos. Ou seja, nenhum.

Mas quem leva essas coisas a sério ficou com a pulga atrás da orelha, tentando entender quais as repercussões em sua vida da nova ordem cósmica. Como será que alguém que passou toda a vida acreditando ser do signo de Leão pode agora ser de Câncer, ou um libriano ser informado de que deixou de sê-lo pra ser regido pelo signo de Virgem? Para quem acredita, o horóscopo dos jornais é tão útil quanto as receitas de bolo. Para quem crê, crença é coisa séria.

Por que o astrônomo Parke Kunkle resolveu meter a sua colher científica nessa sopa mística? Pela mesma razão que, desde a codificação do método científico, os cientistas cutucam os místicos que querem disputar com eles o coração e a mente das pessoas: demarcar espaço. Kunkle quis demonstrar pela enésima vez que a Astrologia é uma crendice sem base científica, amparada em premissas absurdas e cálculos equivocados. 

 

O HORÓSCOPO VERSÃO 2011

 

Devido à oscilação do eixo da Terra, dizem os astrônomos, os signos tradicionais já não correspondem ao alinhamento inicial das constelações com o Sol. Para recolocá-los nas casas correspondentes, Escorpião foi reduzido a apenas 7 dias e se acrescentou mais uma constelação ao zodíaco, a de Serpentário.

 

Por que mudou? 

 

a) Para determinar cada signo, observa-se qual é a constelação alinhada com o trajeto aparente do Sol no céu. Os astrólogos antigos observaram que o Sol faz um círculo em torno da Terra durante um ano (depois, descobriu-se que é o contrário) e que em cada período ele aparentemente coincide com uma constelação do universo. As pessoas têm o signo referente ao conjunto de estrelas alinhado com o Sol na data em que nascem.

b) Os astrônomos, porém, afirmam que a relação feita entre datas não é a mais correta. A posição do eixo da Terra mudou devido à força gravitacional do Sol e da Lua, fenômeno que recebe o nome de precessão, Tal oscilação faz um círculo do eixo, que realiza uma volta completa, retornando ao ponto inicial a cada 26.000 anos. Como consequência, o ponto de vista terrestre em relação ao cosmo é alterado constantemente.

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c) A precessão desloca as estrelas em relação ao trajeto aparente que o Sol faz no céu que vemos a olho nu. Assim, alteram-se as datas de alinhamento de cada signo e outra constelação deveria ser incluída no zodíaco, a de Serpentário. 

 

Bem, quem não se lembra da história, certamente falsa, mas engraçada e plausível, do físico que, aos berros, mandou parar a projeção do filme Guerra nas Estrelas na sua melhor parte, tentando convencer a molecada em êxtase de que ”as explosões não fazem barulho no vácuo”? Kunkle, por sua vez, tentou berrar para as multidões em êxtase com os seus astrólogos o fato cientificamente incontestável de que o céu da Astrologia está errado. Ele explicou pacientemente que há 3.000 anos, quando os mapas astrológicos foram feitos, seus desenhistas realizaram um bom trabalho, alinhando o trajeto do sol no firmamento com as constelações. 

Qual seria o problema, então? O problema é que o céu muda. Pelo menos a porção visível do céu noturno. Isso significa, explicou Kunkle, que as constelações desenhadas pelos astrólogos 3.000 anos atrás para definir que meses e dias do mês correspondem a cada signo não são as mesmas do céu de agora. Isso se deve ao posicionamento do eixo da Terra. 

Nosso planeta orbita o Sol e gira em torno de si mesmo. Os antigos imaginavam que esses movimentos fossem perfeitos — a órbita era circular e o eixo, absolutamente vertical. A ciência mostrou que as órbitas dos planetas são elípticas e que o eixo da Terra tem uma inclinação de cerca de 23 graus. Se a inclinação fosse zero grau, uma mesma fatia do céu noturno seria vista eternamente de um mesmo ponto da superfície do planeta. Com a inclinação de 23 graus, o céu noturno que se enxerga de um mesmo ponto da superfície da Terra muda com o tempo, devido à variação do posicionamento do eixo do planeta. 

 

SAGITÁRIO

 

a)  O tom amarelado decorre da enorme concentração de estrelas em uma área relativamente pequena do céu. Por volta de 10% dos 200 bilhões de estrelas (os cientistas ainda não chegaram a um número de consenso) da Via Láctea se concentram nessa área cujo raio é de 5.000 anos-luz.

b) O buraco negro no centro geométrico da galáxia está aparentemente em Sagitário. Ou seja, para encontrar o centro da Via Láctea basta olhar para a constelação de Sagitário.

Os gregos identificavam a constelação que dá nome ao nono signo do zodíaco com lendas ligadas a arqueiros ou flechas (sagitta, em latim). Podia ser a seta com a qual Hércules matou a águia que comia o fígado de Prometeu ou, na versão mais divulgada, o centauro Quíron. De acordo com o mito, Quíron foi condenado a viver eternamente com a dor de uma flechada desferida por seu pupilo Hércules.

O período do signo de Sagitário no Horóscopo Antigo era de 22 de novembro a 22 de dezembro; no Horóscopo Novo, de 17 de dezembro a 20 de janeiro.

 

LEÃO

 

REGULUS (Alpha Leonis) é a estrela mais brilhante da constelação, com magnitude de 1.35. A magnitude aparente de um corpo celestial é a medida de seu brilho como é visto por um observador na Terra. Quando mais baixo o valor, maior a luminosidade. Há duas novidades sobre Regulus: está a 77.5 anos-luz de distância, e não é uma estrela, mas um conjunto de quatro que, vistas da Terra, parecem uma só.

WOLF 359 é uma anã vermelha a apenas 7.8 anos-luz de distância.

A ilustração abaixo pertence a uma coleção inglesa de 32 visões artísticas de constelações publicadas no século XIX. Acredita-se que os mitos sobre os astros tinham surgido na Grécia, mas indícios arqueológicos apontam para uma origem ainda mais antiga, na Mesopotâmia. Segundo a tradição, o nome da constelação e do signo do zodíaco é uma referência ao leão de Nemeia, que foi morto por Hércules.

O período do signo no Horóscopo Antigo de Leão é de 23 de julho a 23 de agosto, enquanto que do Novo Horóscopo é 10 de agosto a 16 de setembro.

 

ESCORPIÃO

 

ANTERES (Alpha Scorpii) é o astro mais brilhante da constelação e também é a 16ª estrela mais brilhante do céu, com magnitude de 1.09.  O nome Antares vem do grego e significa “rival de Ares” (ou seja, do planeta Marte), provavelmente devido a sua cor e rilho. Vista como um ponto vermelho no céu noturno, ela é uma gigante vermelha com diâmetro 800 vezes maior que o do Sol. 

U SCORPII foi descoberta como uma novidade pelos astrônomos, ou seja, de um par de estrelas vizinhas que trocam componentes entre si, o que causa explosões periódicas. Os intervalos entre as explosões são os mais curtos da Via Láctea, ocorrendo entre dez e trinta anos.

Essa constelação, que dá nome ao oitavo signo do zodíaco, fascinava os antigos pelo seu brilho e pela extensão de 497 graus quadrados, que é a medida de sua área aparente no céu, visto a olho nu. Em termos comparativos significa 2.500 vezes a área que a Lua Cheia ocupa. 

Na mitologia grega, representava o escorpião que matou o gigante Órion, enquanto que na versão egípcia ele estava associado ao período de seca, que coincidia com a passagem do Sol pela constelação.

O período do signo de Escorpião no Horóscopo Antigo era de 23 de outubro a 22 de novembro, mas no Horóscopo Novo é 23 de novembro a 29 de novembro.

 

CIÊNCIA  &  CRENÇA

 

Entrando um pouco mais na separação entre a Astronomia (ciência) e Astrologia (crença), vale registrar mais alguns acontecimentos motivadores dessa separação. 

1890 – O inglês Alan Leo populariza o estudo dos astros e o leva para as massas, ao fundar a revista The Astrologer’s Magazine, a primeira publicação a trazer horóscopos como os vemos hoje nos jornais.

1905 - o físico alemão Albert Einstein formula a Teoria da Relatividade e revoluciona a visão da ciência sobre o cosmo.

1927 - O físico Werner Heisenberg, que viria a ser o chefe do programa de energia nuclear de Hitler, formula o Princípio da Incerteza, sobre o comportamento das partículas atômicas. Os astrólogos, numa interpretação equivocada da teoria, a adotam para defender a ideia de que as energias do universo influenciam a vida na Terra. Por outro lado, George Lemaitre propõe a teoria do Big Bang para explicar o nascimento do universo e estica os limites da pesquisa cosmológica.

1969 – O psicólogo francês Michel Gauquelin publica o livro A Base Científica da Astrologia, no qual tenta dar ares científicos ao horóscopo.

1990 – Lançamento do Telescópio Hubble, que nas duas décadas seguintes ajudaria a desenhar corretamente a geografia do universo e explicar como nasceram as galáxias e os buracos negros.

 

MAIS ARGUMENTAÇÕES DE KUNKLE

 

Voltando à movimentação do eixo da Terra, Kunkle lembra que atualmente ele está alinhado numa posição que o Polo Norte aponta diretamente para a Estrela Polar. Daqui a 12.000 anos, porém, o Polo Norte estará apontando para a estrela Veja.

Disse Kunkle a VEJA:  “É errado quando um astrólogo diz que o Sol estava em Aquário em 21 de janeiro de 2011. Ele estava, na verdade, em Capricórnio”. Corrigido segundo as observações de Kunkle, o calendário astrológico sofreria várias modificações. A data de cada signo se adiantaria em torno de um mês, enquanto que Escorpião seria confinado ao curto período de sete dias. Pelo fato de também se alinhar com o Sol, a constelação de Serpentário (Ophiuchus, na terminologia científica) precisaria, pela própria regra da Astrologia, entrar no horóscopo.

Kunkle enfrentou uma das mais furiosas ondas de apoio e ataques já vistas na internet. No Twitter, o assunto esteve entre os mais comentados no mundo por muitos dias. Os comentários variavam entre “que enorme perda de tempo discutir essa bobagem de horóscopo” e “agora como eu vou saber qual é o meu verdadeiro signo?”.  Todos, naturalmente, entrecortados pelos profissionais bem pagos do ramo da leitura dos astros, tranquilizando a galera com a observação de que “isso não muda nada”. A apresentadora Sabrina Sato, ecoando o sentimento de perplexidade dos adeptos da Astrologia, diz que não aceita mudar de signo. “Sou muito aquariana e quero continuar sendo, mas por via das dúvidas, vou consultar meu astrólogo sobre essa mudança.”

Diante de sua caixa postal entupida de e-mails apreensivos, o veterano astrólogo Oscar Quiroga, do jornal O Estado de São Paulo, escreveu uma mensagem-padrão explicando o assunto aos leitores. Diz ele em certo ponto: “A tentativa de confundir signos e constelações é motivada ou por má intenção ou por pura ignorância. Francamente, a esta altura do campeonato, é imperdoável que os astrônomos continuem cometendo os mesmos erros a respeito do zodíaco.”

Quiroga escancara a contradição básica da Astrologia — a de ter sido ciência quando nem a ciência o era e ter parado por ali por não aceitar os rigores da aferição empírica e da prova pelos pares. As verdades científicas são de formulação simples. Elas se anunciam de forma direta e transparente, expondo sem rodeios suas fragilidades — e é nisso que se encontra a sua força. 

Disse à VEJA o antropólogo americano Jerome Barkow, autor do livro The Adapted Mind (A Mente Adaptada): “O homem tem a habilidade natural de encontrar padrões. É uma vantagem que nos ajudou a sobreviver, a cuidar de nossa prole e a dar continuidade à linhagem. Ao admirar o céu e os astros, o homem deduziu ligações do cosmo com a Terra. Isso nos ajudou a desenvolver a agricultura e a nos guiar pela direção das estrelas.”  

 

AUTORES

Carolina Romanini & Filipe Vilicic

Revista VEJA, Jan/2011

Por: elevados.com.br

Publicado em 15/07/2014

Procedência - Revista VEJA (JAN/2011)

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