Perdido na floresta

 

PERDIDO NA FLORESTA

 

Uma experiência pessoal do Missionário-médico Dr. Albert Widmer Missões Cristãs (Ubatuba/SP)

 

 

 

INTRODUÇÃO 

 

Viajávamos a cavalo, através de uma região quase desabitada no vasto interior do Continente Sul-Americano, região da Bolívia ainda habitada por índios selvagens. Nesta viagem, que durou alguns dias, atravessamos densas florestas, tivemos de passar a vau vários rios e as noites escuras foram passadas debaixo de frondosas árvores, expostos ao constante perigo de animais selvagens e de insetos nocivos. A dura e esforçada viagem, além de ser fatigante, obrigava-nos a racionar os mantimentos, pois as nossas reservas de comida diminuíam assustadoramente. Éramos sete pessoas, a maior parte das quais não estava habituada a esta vida primitiva. Os dias eram horrivelmente escaldantes, mas as noites tornavam-se insuportavelmente frias, de modo que, adormecendo, junto à cinza quente, algumas vezes despertávamos com roupa queimada.

Sempre nos levantávamos antes da aurora. Após um chá quente e umas bolachas secas, montávamos logo para prosseguir a viagem. Algumas vezes perdíamos muitas horas à procura dos cavalos que se tinham embrenhado no bosque à procura de erva ou folhagem.

 

PERDIDO NA SELVA

 

O problema da água e da comida também não era fácil, pois passavam-se dias sem se encontrar um riacho sequer e para suprir parte da nossa alimentação, tratávamos de caçar pássaros. Em certa ocasião avistamos um bando de belíssimos pássaros brancos, chamados garças. Tomei a nossa Winchester e internei-me na espessa selva. Como os pássaros se afastassem, segui-os, penetrando na selva. Acertei, por fim, num belo exemplar, mas a ave, ainda que mortalmente ferida, prosseguia esvoaçando; sem demora, fui à procura dela.

Não notei que já era hora de anoitecer, pois naquela zona equatorial escurece em poucos instantes e, quando tratei de regressar para junto dos meus companheiros, uma escuridão impenetrável envolvia a floresta. Não havia outro recurso senão trepar numa árvore alta para ver se podia enxergar o fogo do acampamento dos meus companheiros. Para completar a minha angústia, começou a chover e densas nuvens cobriam a imensa selva. Nada se podia ver. Tampouco veio resposta aos meus tiros e gritos e estes só viriam a aumentar o perigo, pois podiam atrair a atenção dos índios Parecis, muito temidos nesta região da Bolívia. Passei, portanto, a noite tremendo de frio, com fome e sem poder dormir, devido às ondas de mosquitos que me atacavam sem cessar. Já de madrugada, descendo da árvore, tropecei na garça abatida, mas já não servia para comer, pois milhões de formigas vorazes, conhecidas na Amazônia como “formiga de fogo”, estavam devorando a carne do pássaro.

Em vão procurei orientar o meu caminho para voltar aonde tinha deixado os meus companheiros. Andei horas e horas, internando-me mais e mais na selva, através de uma densíssima vegetação. A folhagem e as trepadeiras gotejavam a chuva de forma que não ficou um fio seco no meu corpo.

Com horror, via aproximar-se o fim do segundo dia, sem ter achado uma saída desse labirinto vegetal. Outra noite caiu e os mosquitos Macuies e Maruiés pareciam devorar-me vivo. Embora cansado, também não pude dormir um instante nessa segunda noite, pois fome, frio e medo atormentavam o meu corpo e a minha mente. Nessa agonia espiritual e física, resolvi apelar para Deus, a quem servia há tantos anos, pois para Ele seria coisa fácil conduzir-me para fora daquele inferno verde.

 

O TERCEIRO DIA TRAZ A LEMBRANÇA DE DEUS

 

Cheguei à conclusão de que, humanamente falando, a minha situação se tornaria cada vez mais precária, até ficar irremediavelmente perdido, pois sem comida, sem lume e sem bússola para me orientar, não sobreviveria muito tempo naquela prisão verde. Várias expedições de grandes homens de ciência, embora munida de todo o seu equipamento moderno, têm desaparecido em selvas misteriosas com aquela.

Ao romper do terceiro dia, levantei-me, mas todo o meu corpo estava dolorido, os braços e o rosto inchados pelas picadas dos mosquitos, que não cessavam de me perseguir de dia e de noite. Compreendi que se queria escapar com vida, teria que mover-me enquanto ainda tivesse força, pois uma fraqueza geral se apoderava de mim. Com uma oração fervorosa a Deus, levantei-me e tomei determinado rumo, sem me poder orientar pelo sol, pois chovia quase sempre e quando cessava não era possível enxergar o sol, devido à espessura da folhagem de árvores que teriam provavelmente 30 a 40 metros de altura.

 

O QUARTO DIA

 

Com a aurora do quarto dia, embora completamente exausto, renovei o meu esforço, fui abrindo caminho através dos arbustos e trepadeiras até que achei, numa clareira, abundante quantidade de pequenas frutas silvestres comestíveis, pois estavam picadas dos pássaros. Essa fruta, juntamente com gusanos, vermes extraídos de troncos apodrecidos, serviram-me de alimentação suplementar. Deus não havia de abandonar-me, disto estava absolutamente convencido. O mesmo Deus que guiou os israelitas pelo deserto da Arábia, poderia guiar-me para fora dessa selva secular.

 

A VOLTA AO ACAMPAMENTO

 

Era já o quinto dia em que me encontrava perdido na selva, quando notei um leve declínio no terreno que percorria, que infalivelmente teria de conduzir a um ribeiro. Depois de algum tempo, ora saltando ora tropeçando sobre árvores podres e através de cipós entrelaçados, ouvi o ruído da água, certamente um afluente do majestoso Rio Mamoré.

Segui algumas horas os barrancos do rio desconhecido, desviando-me, com cautela, dos numerosos jacarés que se estendiam no lodo. De repente, ouvi o relinchar de um cavalo, e antes que se fechasse mais uma noite de solidão na selva, achava-me sentado junto dos meus amigos ao redor do fogo do acampamento. Com lágrimas nos olhos, dávamos graças a Deus por ter protegido a minha vida.

 

O PODER DA ORAÇÃO

 

Meu caro leitor, tu crês também no poder da oração, quando Deus ouve as nossa súplicas num momento em que pareciam perdidas todas as esperanças. Dirás que nunca esperas chegar a uma situação dessas, isto é, te perderes na selva de um sertão desconhecido. Pode acontecer, porém, que te encontres perdido num bosque emaranhado de vícios e pecados do qual não consegues livrar-te. Não são os bons propósitos nem livros de rezas que te ajudarão. É preciso que tenhas uma fé viva nas promessas de Deus. Se eu tivesse confiado na minha própria força, certamente teria perecido na minha aflição, mas a confiança em Deus trouxe novo ânimo ao meu espírito.

O Deus bondoso que me tirou daquela densa floresta, esse mesmo Deus te ouvirá e te salvará onde quer que te encontres. Levanta-te e, com fé no Senhor Jesus, toma o rumo que te conduzirá para fora do bosque do teu pecado, superstição e incerteza. Pede a Deus e serás salvo, salvo por meio do sacrifício expiatório do Seu bendito Filho Jesus Cristo

 

AUTOR

Dr. Albert Widmer

Missionário

Por: Alberto Widmer

Publicado em 22/05/2017

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