O conceito bíblico de Regeneração

 

O CONCEITO BÍBLICO DE

REGENERAÇÃO

 

 

Temos examinado de relance algumas das ideias relativas à regeneração, defendidas pelos cristãos através dos séculos. Agora, porém, voltemo-nos para as Escrituras. Como a Bíblia apresenta a regeneração?

O substantivo assim traduzido significa renascimento (no grego, palingenesia). Ele se refere à renovação criativa operada pelo poder de Deus e ocorre por duas vezes. Em Mateus 19:28, refere-se à vindoura renovação do cosmos, no fim das épocas aquilo que Pedro chama de “restauração de todas as cousas” (At 3:21). Porém, em Tito 3:5, onde Paulo refere-se a Deus como nos tendo salvo “mediante o lavar regenerador e renovador do Espírito Santo”, está claramente em foco a vivificação espiritual do crente. Essa é a referência à palavra “regeneração” que nos interessa no momento.

O contexto ao qual pertence a ideia da regeneração é o conceito bíblico do aspecto subjetivo da redenção como uma renovação. No Antigo Testamento, encontramos Deus prometendo que daria ao Seu povo um coração novo e que poria neles um espírito novo (Ez 36:26) a fim de circuncidar seus corações, por gravar neles as suas leis, e, desta forma, levá-los a conhecer, a amar e a obedecê-Lo. (Ver Dt 30:6; Jr 31:31-34; Ez 36:25-27.) No Novo Testamento, essa renovação prometida torna-se uma realidade por meio da união com Cristo, pois, “se alguém está em Cristo, é nova criatura” (2 Co 5:17; ver também Gl 6:15).

Vale a pena fazermos aqui uma pausa, a fim de considerarmos a análise exposta por B. B. Warfield, sobre essa mudança, como “uma radical e completa transformação operada na alma (Rm 12:2; Ef 4:23) pelo Espírito Santo (Tt 3:5; Ef 4:24), em virtude da qual nos tornamos ‘novos homens’ (Ef 4:24; Cl 3:10), não mais conformados com este mundo (Rm 12:2; Ef 4:22; Cl 3:9), mas antes, em santidade e conhecimento da verdade, criados segundo a imagem de Deus (Ef 4:24; Cl 3:10; Rm 12:2)”  da Biblical and Theological Studies (Estudos Bíblicos e Teológicos, p. 351). Essa obra de renovação acompanha o crente por toda a sua vida terrena, pois o homem interior “se renova de dia em dia” (2 Co 4:16), num processo contínuo, comumente chamado “santificação”. A regeneração é o ato inicial pelo qual esse processo é começado.

No Novo Testamento, o principal expositor da regeneração é o apóstolo João. O termo grego por ele usado para exprimir a ideia é gennaõ, que pode significar tanto “gerar” quanto “dar à luz”. Nicodemos compreendeu que nosso Senhor estava falando de um novo nascimento (Jo 3:4). Em sua primeira carta, João claramente tinha em mira uma nova geração (cf. 1 Jo 3:9). O homem é gerado ou nascido “de novo” — ou, mais provavelmente, nascido “do alto” (Jo 3:3, 7) — ou “do Espírito” (Jo 3:8; cf. v. 5), ou simplesmente “de Deus” (Jo 1:13; nove vezes em 1 João). O verbo “nascer”, no grego, em cada instância, é usado no aoristo ou no perfeito, a fim de denotar o caráter decisivo e completo da regeneração. Com o devido respeito a Calvino, a regeneração não pode ser considerada um processo inacabado. Tal como o nascimento natural, se a regeneração ocorreu, ela ocorreu completamente. A pessoa nasce de novo em um certo momento e a partir de então está espiritualmente viva.

De acordo com João, o que é o novo nascimento? Não é uma alteração ou adição à substância ou às faculdades da alma, e, sim, uma drástica mudança operada sobre a natureza humana caída, que leva o homem a ficar sob o domínio eficaz do Espírito Santo e o torna sensível a Deus, o que ele previamente não era. Não é uma mudança produzida pelo próprio homem, da mesma forma que os infantes nada fazem a fim de induzir ou contribuir para sua própria procriação e nascimento. Trata--se de um livre ato de Deus, não provocado por qualquer mérito ou esforço humano (cf. Jo 1:12,13; Tt 3:3-7), por ser totalmente um dom da graça divina.

 

A NECESSIDADE DA REGENERAÇÃO

 

Por que o homem precisa da regeneração? Porque, conforme nosso Senhor explicou a Nicodemos, enquanto o homem permanece na “carne” (Jo 3:6), isto é, permanece pecador como nasceu não é capaz de entrar no reino de Deus. Sem a regeneração, não existem atividades espirituais. Quem não nasceu do alto não pode ver (compreender) o reino de Deus (o reino da salvação), nem pode entrar nele (pela fé no Salvador) (Jo 3:3,5). O que fica implícito no fato que alguns recebem a Cristo é que nasceram de Deus (Jo 1:12,13); pois não poderiam tê-lo feito de outra maneira. Paulo coloca a questão nestes termos: “Ora, o homem natural [isto é, o não-regenerado] não aceita as cousas do Espírito de Deus, porque lhe são loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente” (1 Co 2:14). O diálogo de Jesus com Nicodemos constitui um eloquente comentário sobre esse texto. Os pecadores incluindo os mais cultos e religiosos não podem receber as cousas do Espírito, que são as verdades atinentes a Cristo, enquanto o próprio Espírito de Deus não os tiver tornado em novas criaturas. Eis a razão pela qual Nicodemos e seus amigos judeus precisavam do novo nascimento. Jesus lhe disse: “Não te admires de eu te dizer: Importa-vos [plural] nascer de novo” (Jo 3:7).

 

AUTOR

Rev. J.I. Packer

 

O Dr. James Innell Packer nasceu em Gloucester, Inglaterra, em 1926, mas é considerado um teólogo cristão canadense de origem britânica, dentro da tradição calvinista anglicana. No final do Século XX atuava ainda como Professor de Teologia do Conselho de Governadores no Regent College de Vancouver, Colúmbia Britânica, sendo considerado um dos mais importantes teólogos evangélicos do final do século, o mais respeitado autor evangélico anglicano, teólogo, clérigo e estudioso.

Estudou na Oxford University e foi educado na faculdade de Corpus Christi, obtendo os graus de Bacharel de Artes em Teologia (1948), Mestre de Artes (1954) e Doutor em Filosofia (1954). Foi como estudante em Oxford que ele teve contato com livros que o influenciaram, quando em 1944 entregou sua vida ao serviço cristão.

Em 1979 transferiu-se para Vancouver, Canadá, para servir na Igreja Anglicana daquela região, mas enfrentou momentos conturbados quando não aceitou a decisão da sua Igreja em abençoar casamentos entre pessoas do mesmo sexo (homossexuais). Chegando a pedir a renúncia do Arcebispo Rowan Williams, Packer viu-se na contingência de ter que abandonar a Igreja de Vacouver.

Entre os livros escritos por Packer, podemos citar “O conhecimento de Deus”, “Conhecendo Deus”, “Entre os gigantes de Deus”, “Teoria Concisa”, “Deus que guia e guarda o direcionamento divino para as decisões da vida”, O plano de Deus para você”, “O antigo evangelho”, “Força na fraqueza”, “Paixão pela fidelidade”, “A dinâmica do Espírito”, “A redescoberta da santidade”

 

Por: elevados.com.br

Publicado em 31/10/2017

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