A Reforma Protestante e o Movimento Evangélico Brasileiro

 A REFORMA PROTESTANTE E 

O MOVIMENTO EVANGÉLICO BRASILEIRO
 
 
 
 
 
O movimento evangélico brasileiro, ao menos no discurso, afirma seu vínculo histórico com a Reforma Protestante do século XVI, contudo seus desdobramentos práticos em nosso país, infelizmente, têm estado bem distantes de tal realidade e promovido inúmeros ensinos distorcidos, que desembocam em atitudes equivocadas, que corrompem a verdade da Escritura, a saúde da Igreja e a vida dos que estão e se aproximam desta de um modo geral.
Foi o saudoso Bispo Robinson Cavalcanti quem disse:
 
Qual o jovem cristão hoje que pode minimamente discorrer sobre Lutero, Calvino, Melanchton ou Beza? Qual é o fiel de hoje que conhece os catecismos ou as confissões de fé como as de Westminster, de Augsburgo ou os 39 Artigos da Religião? Em relação à Reforma o nosso protestantismo é como um computador primitivo, não possui memória, apenas uma vaga lembrança.
 
Infelizmente, nos dias atuais promovemos muito mais a experiência, os resultados e os relacionamentos, enquanto que a fé, a confessionalidade, o ensino robusto e o amor à Escritura como palavra pela qual Cristo governa Sua igreja, são deixados de lado, rotulados como “chatos e dispensáveis” ou enquadrados dentre as atividades que “não empolgam ninguém”. Não é difícil presenciar, eu mesmo já o fiz, pessoas dentro das igrejas evangélicas brasileiras que não têm a menor ideia das suas origens como cristãos, e que ao ouvirem o termo “reforma” confundem o movimento do século XVI com uma possível reforma aqui ou ali na construção do templo. Claro que não estou falando de irmãos novos na fé, que ainda carecem de conhecimento básico, mas de moços, moças, homens, mulheres, gente adulta inteligente, que frequenta igreja há dois, três, cinco ou até 10 anos. É claro também, que não estou generalizando, pois existe um sem número de igrejas sérias em nosso país e o movimento de retorno às Escrituras e à ortodoxia tem crescido consideravelmente, porém a quantidade de cristãos protestantes brasileiros que têm pouca ou nenhuma informação a respeito de quem são, de onde vêm suas raízes e porque recebem o nome de ‘cristãos protestantes’, ainda assim, é alarmante.
 

VOCÊ SABE DO QUE TRATA A REFORMA PROTESTANTE? 
 
 
A Reforma Protestante foi o movimento que lutou contra o clericalismo e o hierarquismo que dominavam a Igreja Católica Romana no final do século XV, início do século XVI e, por conseguinte, grande parte da estrutura social da época, hasteando com toda força a bandeira da doutrina bíblica do sacerdócio universal dos crentes e da suprema autoridade das Escrituras Sagradas sobre a vida do cristão. 
 
Numa época onde apenas clérigos, nobres e reis podiam ler e escrever, os reformadores espalharam escolas e universidades pela Europa, balizados na ideia de que todo ser humano fora criado à imagem e semelhança de Deus e tem o direito à alfabetização e ao aprendizado, e que toda atividade é santa perante Deus, podendo ser feita de forma excelente para Sua glória. 
 
No anseio de formar gente para servir a Deus e aos homens em todas as áreas da vida, contrapondo em absoluto a prática católica romana da época, algumas das instituições fundadas pelos reformadores na área da educação foram as Universidades de Genebra, Zurique, Utrech, Amsterdã, Harvard, Yale, Princeton, Brown, Dartmouth e Rutgers. Os Puritanos restauraram Oxford e Cambridge. 
 
A Reforma foi muito mais que um movimento religioso, uma vez que os reformadores lançaram as bases para uma nova sociedade, incentivando cristãos a se especializarem nos dons que tinham para servir a quem quer que seja, onde quer que fosse, para a glória de Deus. Estavam abertos os portões para a grande revolução na história da humanidade.
 
Michael Horton, em seu livro “O cristão e a cultura”, mostra com veemência o quanto nossos pais criam que Deus é o Senhor de toda a nossa vida. Horton descreve esta imensa mudança que o mundo experimentou com a Reforma Protestante nas figuras de Lutero e Calvino:
 
Martinho Lutero persuadiu o governo a proclamar a educação universal compulsória tanto para meninas como para meninos, pela primeira vez na história ocidental. Com seus associados ele criou um sistema de educação pública na Alemanha. O cristianismo era religião da Palavra, e aqueles que dependiam de imagens religiosas e só “ouviram falar” eram, a princípio, espiritualmente empobrecidos. Mas eram também culturalmente empobrecidos e esse era um ponto igualmente importante. Com esse propósito o colega de Lutero, Melanchthon, declarou: “A finalidade última que confrontamos não é apenas a virtude particular, mas o interesse do bem público.”
 
Calvino argumentava na seguinte linha: 
 
Visto que é necessário preparar as gerações futuras a fim de não deixar a Igreja num deserto para os nossos filhos, é imperativo que se estabeleça um colégio para se instruir os filhos e prepará-los tanto para o ministério quanto para o governo civil. (Ordenanças de 1541)
 
Os reformadores acreditavam que todo homem tem direito de ser respeitado, valorizado e ensinado. Não é o fato se ser rei, governante, nobre, professor, enfermeiro, gari ou um pastor que confere maior santidade e um lugar mais importante a alguém junto de Deus, afinal, é muito possível encontrar um pastor relapso, preguiçoso e desonesto para com os estudos da Escritura Sagrada e suas atividades pastorais, que traz desonra e vergonha para Deus, e uma dona de casa caprichosa e amorosa que faz seu trabalho com afinco e orgulho, que traz glória para Deus. Não é o que fazemos que traz mais ou menos glória para Deus, e sim como fazemos. Somos cristãos em todos os momentos, em todos os lugares, fazendo todas as coisas, não apenas quando estamos de batina ou de terno e gravata, encaixotados dentro de um “templo” religioso. Ideias como essas revolucionaram nações inteiras na Europa e serviram como grandes fogueiras que deixaram o Velho Continente em chamas e o corpo de inúmeros mártires cristãos em cinzas, neste período da história.
 
Foram os reformadores que tiveram a coragem de tomar a autoridade da Igreja das mãos da tradição e do clero e entregá-la de volta às Sagradas Escrituras. Foram eles que nos lembraram novamente que somos salvos apenas pela graça, mediante a fé, e que a obra da salvação e qualquer movimento de avivamento nunca foi e nunca será protagonizado e provocado por homem algum, e que todo aquele que crê, só crê porque o Espírito Santo o convenceu do pecado da justiça e do juízo. 
 
Os reformadores nos lembraram que glorificamos a Deus não apenas nos monastérios e nos templos, e que não precisamos demonizar o mundo, a criação e tudo que neles há. Foi a cidade de Genebra, pelas mãos de um reformador, a primeira cidade na Europa a ter saneamento básico, polícia, água encanada, hospitais e o parto de infantes regulamentado e assistido por profissionais da área. Boa parte da noção ocidental de democracia, república, arte, justiça, liberdade de imprensa, direitos humanos, defesa de minorias e educação vem do movimento reformista. 
 
Foram os reformadores que traduziram a Escritura para diversas línguas. Se a Bíblia Sagrada hoje pode ser lida em português e tantos outros idiomas, é porque homens e mulheres sofreram muito, a ponto de derramarem o próprio sangue por esta causa. A fundamentação e o aperfeiçoamento de línguas como o alemão e o francês estão ligados profundamente a obras do período da reforma, como a tradução da Bíblia Sagrada para o alemão e “As Institutas da Religião Cristã”, respectivamente.
 
O escritor Alister McGrath, em seu livro “Origens Intelectuais da Reforma”, faz um questionamento interessante, quando pergunta: “A Reforma Protestante alcançou seu objetivo? O motivo principal, que era reformar o que já estava criado, foi alcançado?” Creio que uma resposta sensata diante desta questão seria não. Não era intenção de Martinho Lutero dividir a Igreja, antes, pois sua proposta era reformá-la! No entanto, isso não aconteceu, pois a Igreja Católica Romana se fechou, excomungou-o e tratou-o como herege. 
 
Veio a Contrarreforma e o protestantismo começou a se expandir, tomar forma e ganhar contornos cada vez mais robustos. É importante não atribuir status canônico aos reformadores e suas obras, uma vez que são homens como todos nós, que tiveram suas falhas como quaisquer outros, contudo foram escolhidos por Deus para uma missão grandiosa que marcaria o planeta para sempre. 
 
Em certo sentido, a reforma da Igreja, como pensavam os primeiros reformadores, foi um fracasso, mas nos apontou caminhos, trouxe luz a muitas mazelas escondidas do seio de uma instituição religiosa gigantesca e fundamentou filosófica e teologicamente a prática da Igreja de Cristo daquele momento em diante.
 
 
O QUE REFORMADORES NUNCA IMAGINARAM  
 
 
Numa breve leitura do cenário do protestantismo atual no Brasil é possível perceber um retrocesso preocupante em relação a grande parte do que foi a luta do movimento reformado. Vejamos alguns pontos:
 
• Grandes denominações centradas na figura de uma única pessoa, prática que faz alusão a uma espécie de papismo e atenta contra o princípio protestante do sacerdócio universal dos crentes.
 
• Tradicionalismo ou denominacionalismo exacerbado, que em diversos momentos toma o lugar das Escrituras Sagradas, no governo da igreja.
 
• Redemonização do mundo, que fere o princípio que a criação é boa e bela, e Deus, em sua missão (Missio Dei) a está reconciliando consigo mesmo por meio de Seu Filho Jesus, utilizando-se muitas vezes de Seus santos espalhados pelo mundo.
 
• Isolacionismo, ou seja, a ideia de que para ser santo deve-se evitar o contato com o mundo, que fere o ensino reformado de santidade ativa no mundo.
 
• Teologia da prosperidade, que fere contundentemente a memória e os ensinos dos mártires e, com toda certeza, seria escorraçada pelos reformadores.
 
• Teologia dos que são cabeça e não cauda, que dominam ao invés de serem dominados, a chamada teologia do domínio, que nega o chamado do cristão ao serviço sacrificial.
 
• Alienação política ou a política feita em causa própria, que ere a ideia do exercício político a serviço de toda nação para glória de Deus e não a serviço de uma minoria para glória de um grupo.
 
• Insensibilidade e afastamento social contrasta com as obras de misericórdia e amor que eram pontos centrais do ensino e da vida dos reformadores.
 
• Preconceito com o conhecimento científico, principalmente em relação às ciências humanas e com os estudos em geral, completamente antagônico aos títulos de mestres e doutores de inúmeros mestres reformadores que, diga-se de passagem, tinham como meta a educação e a construção de universidades.
 
Olhar no retrovisor da história, nesse momento de comemoração dos 500 anos de Reforma Protestante, é extremamente necessário. Para onde estamos indo como povo de Deus espalhados por esse mundo? O que temos acrescentado, qual a nossa contribuição aos de fora da Igreja? Que tipo de evangelho tem sido pregado do alto de nossos púlpitos? Temos honrado o sangue de tantos e tantos mártires da causa do evangelho? Os reformadores se sentiriam parte das igrejas evangélicas atuais? É a glória de Deus que estamos buscando acima de todos os outros interesses como Igreja de Cristo em solo brasileiro?
 
É necessário que nesse 31 de Outubro, deixemos o “Halloween Gospel” de lado e dediquemos mais tempo para o estudo de onde viemos, do que diziam, escreviam e de como viviam os fundadores do movimento ao qual, pelo menos no discurso, dizemos fazer parte. Conforme disse acima, a Reforma Protestante nos apontou caminhos, caminhos preciosos desbravados a duras penas, à custa de muito sangue e trabalho. Cabe a nós, em nossa geração, contextualizar todas estas realidades e, fundamentados no temor do Senhor, na Bíblia Sagrada e no exemplo destes piedosos e fiéis homens de Deus, glorificarmos o nome de Cristo Jesus em todas as esferas da vida, o tempo todo e em todos os lugares. 
 
Sejamos corajosos! Que Deus abençoe a Igreja Brasileira e que nos lembremos hoje, mais do que nunca, de um dos principais lemas da Reforma, que diz: Igreja reformada, sempre se reformando.
 
             Que Deus nos alcance!
 
 
AUTOR
 
 
LUCAS FREITAS
30/10/2015
 
 
Lucas Freitas é plantador da Igreja Presbiteriana do Brasil na cidade de Cunha/SP, é formado no SEDEC – Seminário de Desenvolvimento Comunitário pelo CADI Brasil e na Escola Compacta pela Missão Steiger Brasil. No momento em que escreveu este artigo (2015), estava cursando o Oitavo Semestre do curso de Teologia pela FUNVIC – Fundação Universitária Vida Cristã. 
 
 
 

Por: Lucas Freitas

Publicado em 29/11/2017

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