O cordão de três dobras

 O CORDÃO

DE TRÊS DOBRAS

 

 

Melhor é serem dois do que um, pois têm melhor paga do seu trabalho: Porque se caírem, um levanta o companheiro; ai, porém, do que estiver só, pois, caindo, não haverá quem o levante. Também, se dois dormirem juntos, eles se aquentarão; mas um só, como se aquentará? Se alguém quiser prevalecer contra um, os dois lhe resistirão; o cordão de três dobras não se rebenta com facilidade.”                                                                                                                (Eclesiastes 4.9-12)

 
 
Durante muito tempo li, ouvi e entendi que o cordão de três dobras, do qual fala o texto, se refere a presença de Deus em virtude do exercício do companheirismo que promove o Seu agir na história. Conquanto isso seja verdadeiro, ficava sempre uma impressão em meu coração, como a dizer-me que o texto queria expressar mais coisas, realidades mais complexas ligadas às inerências do próprio contexto bíblico.
 
Num determinado dia veio a iluminação: de maneira essencial, o cordão de três dobras surge em função da mistura, da mescla, da união. O entrelaçamento produz algo fenomenológico, metafísico.
 
Vivi muito tempo em duas cidades fronteiriças, na divisa do Brasil com o Uruguai, no interior do Rio Grande do Sul. Durante aquele tempo, percebi uma riqueza cultural proveniente dessa mistura, dessa proximidade cultural, valores, fenômenos e produções que são acréscimos, em virtude do entrelaçamento dessas duas cidades separadas apenas por ruas e avenidas. Esse fenômeno fundiu aquelas duas comunidades, tornando-as, em certo sentido, uma unidade sócio-cultural, com características peculiares em diversos universos antropológicos, fato que as tornaram fortes, resistentes às crises e as imprecisões históricas e mercadológicas.
 
Percebi que esse processo fenomenológico, acontece sempre que existe união. A unidade na diversidade gera robustez, produz valores, trama conjunturas de fortalecimentos pelo viés da costura comunal. 
 
A experiência conjugal concebe o mesmo fenômeno. Quando duas pessoas se casam, carregam hábitos, costumes, tendências e inclinações, que são heranças dos ambientes familiares de ambos e dos legados de seus pais. 
 
No entanto, eles não reproduzirão tudo que aprenderam em suas ambiências anteriores, pois as individualidades serão amalgamadas e unificadas pela vivência matrimonial, de modo que eles venham a produzir uma nova cultura familiar, com uma identidade originada pelo enlace de suas histórias, peculiaridades, temperamentos e personalidades, como também, pela união de seus corpos, de suas almas e de seus espíritos, somados aos intensos sentimentos inerentes a ambos, que por sua vez produzem uma espécie de ligadura conjugal que os torna fortes e originais. 
 
Esse fenômeno é a terceira dobra tecida pela fricção, pelo acasalamento, pela troca de energias dos cônjuges. Isso se dá de forma natural, e na grande maioria das vezes é inconsciente.  Na busca pelo 
ideal matrimonial, na pressão da superação por causa das diferenças individuais, e nas alegrias e conquistas no dia-a-dia da vida a dois, a terceira dobra surge e se encorpa, ocupando espaço e fortalecendo a relação.
 
Algo divino é gerado quando o companheiro levanta o outro que caiu. O vínculo da amizade verdadeira é aperfeiçoado quando, no frio, esquentamos com o nosso próprio corpo a pessoa amada, e nas batalhas da vida, em meio aos embates cruéis, a ajuda do parceiro fiel, que se dispõe a pelejar conosco, torna a resistência muito possível de ser vitoriosa. É como dizem as Escrituras: “O cordão de três dobras não se rebenta com facilidade.”
 
Por essa razão, é muito melhor serem dois do que um. O usufruir da vida e o aproveitamento das conquistas resultará muito mais prazeroso e satisfatório quando for compartilhado. Como poderemos ser plenos se estivermos solitários? Que espécie de prazer teremos nós, se desfrutarmos nossos lucros sozinhos? Jamais seremos completos a sós. O livro de Deus afirma: “Melhor é serem dois do que um, porque têm melhor paga do seu trabalho”. 
 

AUTOR
 
 Bartolomeu de Andrade
2019
 
 
 

Por: Bartolomeu de Andrade

Publicado em 14/06/2019

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