Igreja Primitiva (Séculos 1-2-3)

 

IGREJA PRIMITIVA

(SÉCULOS 1-2-3)

 

 

Este trabalho de pesquisa pretende mostrar, resumidamente, como aconteceram os primeiros movimentos do Cristianismo, o começo da Igreja instituída por Jesus Cristo e implantada pelos Seus apóstolos e discípulos. Essa Igreja inicial também é chamada de  “Igreja Neotestamentária”, pelo fato do seu surgimento ter sido narrado pelo livro de Atos dos Apóstolos. 

Essa primeira etapa da História da Igreja aconteceu durante os séculos I, II e III e parte do século IV, começando com a Ressurreição de Jesus em 33 aD e terminando em 325 aD, com a promulgação do Concílio de Niceia. 

 

 

1. OS PRIMEIROS PASSOS DA IGREJA

 

 

No ano 33, no Monte das Oliveiras, Jesus Cristo ressuscitado despedia-se dos Seus seguidores, antes de subir aos céus, com as seguintes palavras: 

 

Não vos ausenteis de Jerusalém, mas esperai a promessa do Pai, a qual de mim ouvistes. João batizou com água, mas vós sereis batizados com o Espírito Santo, não muito depois destes dias. [...] Mas recebereis poder, ao descer sobre vós o Espírito Santo, e sereis minhas testemunhas, tanto em Jerusalém como em toda a Judeia e Samaria, e até os confins da terra. (Atos 1:4-8)

 

 

Depois de assistirem Jesus desaparecer entre as nuvens, parte deles voltou para o cenáculo, em Jerusalém: Simão Pedro, Tiago (filho de Zebedeu), João, André, Filipe, Tomé, Bartolomeu, Mateus, Tiago (filho de Alfeu), Simão (o Zelote) e Judas (filho de Tiago), acompanhados de suas esposas e de Maria (mãe de Jesus) e com os irmãos de Jesus. Logo, esse grupo já aumentava para aproximadamente 120 pessoas, todos perseverando em oração e súplicas, aguardando o cumprimento da promessa do Senhor Jesus antes de subir.

Tomando a liderança, Pedro convocou a todos para escolherem quem seria o substituto de Judas Iscatiotis e, por sorteio, a escolha recaiu sobre Matias. Aí está o primeiro passo dado pela Igreja Primitiva como instituição. (Atos 1:15-26)

Por questões históricas, vale reiterar aqui que o grupo implantador da Igreja Primitiva era totalmente formado por judeus (apóstolos e outros discípulos). Lendo os livros de Atos dos Apóstolos e Epístola aos Gálatas, confirmaremos que essa primeira comunidade cristã estava centrada em Jerusalém, tendo como líderes os apóstolos Tiago, Pedro e João.

 

 

1.1  Dia de Pentecostes

 

 

O capítulo 2 de Atos narra os acontecimentos rumorosos do Dia de Pentecostes, momento em que todo o grupo estava em oração no cenáculo. De repente, ouviram um som como se fosse um forte vento, e viram múltiplas línguas de fogo, que pousavam sobre as cabeças de todos quantos ali estavam. Todos foram cheios do Espírito Santo e começaram a falar em outras línguas, acontecimento que atraiu a atenção de curiosos que passavam por ali.

Diante da perplexidade geral, o apóstolo Pedro pôs-se de pé, juntamente com os outros apóstolos, e levantou a voz para que todos os presente pudessem ouvi-lo. Repreendeu àqueles que julgavam estar assistindo a uma reunião de pessoas embriagadas e esclareceu-lhes que ali estava se cumprindo a promessa de Jesus quando subiu aos céus, dias antes. Inclusive comentou que esse acontecimento houvera sido profetizado pelo profeta Joel: “Do meu Espírito derramarei sobre toda a carne, os vossos filhos e filhas profetizarão, os vossos jovens terão visões e os vossos velhos sonharão sonhos. Até sobre os servos e servas, naquele dia, derramarei o meu Espírito.”  (Joel 2:28,29)

Pedro aproveitou para explicar aos irmãos presentes e demais visitantes estupefatos, que Jesus era o Messias mandado por Deus a este mundo, a fim de salvar a humanidade. Falou dAquele que estivera entre eles operando prodígios e maravilhas e que recebera a morte por crucificação como prêmio. Logicamente, falou novamente sobre a Sua recente ressurreição, concluindo que Cristo agora estava sentado à destra do Pai.

 

 

1.2  Conversões 

 

 

Diante do que foi assistido, e diante das palavras ungidas de Pedro, quase três mil almas foram acrescentadas à Igreja em formação, sendo todos batizados em águas, passando a perseverar na doutrina dos apóstolos, na comunhão no partir do pão e nas orações. (Atos 2:37-47)

O crescimento foi tão rápido que deixou os sacerdotes do templo muito admirados. Em pouco tempo o número do grupo chegou a quase cinco mil. Foi assim que a Igreja foi crescendo e se multiplicando (Atos 6:7).

 

 

1.3  A Igreja começa a andar

 

 

A partir daí, cheios do Espírito Santo, os apóstolos começaram a fazer as mesmas maravilhas que o Mestre operava no meio deles. Dependendo da fé, coxo começava a andar, cego passava a enxergar, paralítico se levantava, e a fé ia se espelhando. 

 

 

 

2. PERSEGUIÇÃO GERA CRESCIMENTO

 

 

Nós sempre ouvimos de um pregador da Palavra de Deus, Pr. Bartolomeu Severino de Andrade, que a Igreja só cresce quando é perseguida. Não existe verdade maior.

Devido à grande perseguição que se levantou contra os cristãos em Jerusalém, os discípulos dos apóstolos foram sendo espalhados pela Judéia e pela Samaria, onde passaram a pregar  as Boas Novas.  Pelo ministério de Filipe e dos apóstolos Pedro e João, a Igreja “invadiu” a região de Samaria. Atos 8:17 mostra que os samaritanos receberam o Espírito Santo, sendo assim batizados no Corpo de Cristo, que é a Igreja. 

Em Atos 9:31 vemos Lucas afirmando que a Igreja se espalhou até a Galiléia e que crescia em número. Os missionários crentes alcançaram Damasco e Jope e seguiram para o sul, até a Etiópia. Havia crentes espalhados até a Fenícia, Chipre e Antioquia (Atos 11:19). 

 

 

2.1  A vez dos gentios

 

 

Por questões históricas, precisamos registrar aqui que o primeiro gentio a tomar parte no Corpo de Cristo foi o centurião Cornélio, de Cesareia. Depois de ouvirem o Evangelho pregado pelo apóstolo Pedro, Cornélio e sua família foram batizados com o Espírito Santo, exatamente como os 120 discípulos no dia de Pentecostes. Foi a partir daí que os judeus passaram a entender que a Salvação era também para os gentios.

No ano 35 dC aconteceu a apoteótica conversão de Saulo de Tarso, perseguidor sanguinário dos cristãos, quando se dirigia a Damasco. Estava chegando ao seu destino quando foi derrubado do seu cavalo, cegado por um imenso clarão sobrenatural e foi confrontado por Jesus, a quem perseguia sem ter esse entendimento. Foi preciso essa conversão violenta para que fosse levantado o “Apóstolo dos Gentios”, possivelmente o mais importante missionário da Igreja Primitiva. Suas viagens missionárias a partir daí fizeram a diferença no ritmo de crescimento da Igreja.

Alguns crentes de Chipre e Cirene encarregaram-se de levar a mensagem de Jesus Cristo até os gentios de Antioquia da Síria, uma das maiores cidades do mundo daquela época. Muitos se converteram ao Senhor. Paulo e Barnabé passaram um ano inteiro ensinando o Evangelho para aqueles novos crentes. Historicamente, foram os crentes de Antioquia da Síria os primeiros a serem chamados de cristãos.

 

 

2.2  A vez da Europa

 

 

Atos 16:9 relata a passagem de Paulo pela cidade de Trôade, por volta do ano 50 dC, quando teve a visão de um homem macedônio pedindo ajuda para o seu povo do outro lado do mar. Esse local, na época, era chamado de Ásia Menor, que atualmente faz parte da Turquia, região em que os continentes da Ásia e Europa ficam muito próximos um do outro, separados por uma estreita faixa de mar. 

Para melhor localizarmos o leitor sobre essa região da Ásia Menor, diríamos que se trata de uma península, um pedaço de terra cercado de água por todos os lados, menos um, que é ligado ao continente. Seria quase uma ilha. O Mar Negro fica ao norte da Ásia Menor; o Mar Egeu, a oeste; e o Mar Mediterrâneo, ao sul. A península se estende no sentido Leste-Oeste da Ásia em direção à Europa. Veja o mapa a seguir:

Voltando ao apóstolo Paulo, ele teve a visão de um homem da Macedônia pedindo-lhe que fosse até o outro lado para ajudar ao seu povo em dificuldade. Entendendo ser uma vontade de Deus que ele fizesse isso, Paulo atravessou a faixa de mar, vindo a fundar igrejas por toda a Macedônia. Em Filipo, Paulo conheceu a Lídia, da cidade de Tiatira, mulher que servia a Deus por lá. Outro fato marcante dessa viagem foi a prisão de Paulo e Silas, quando ganharam a alma de um carcereiro. 

Outros lugares visitados por Paulo foram Anfípolis, Apolônia, Tessalônica, Corinto e Bereia...  Dali Paulo viajou para Atenas, onde deparou-se com a idolatria vigente naquela cidade.

 


3. INÍCIO DA ERA CRISTÃ

 

 

Com a vinda de Cristo a este mundo começou uma nova contagem do tempo. Os séculos passados antes do nascimento de Cristo são classificados como AC (antes de Cristo), período que tinha acumulado mais de 5 mil anos de história. A partir daí, inicia-se a Era Cristã, com uma nova contagem do tempo, a Era DC (depois de Cristo).

O livro de Atos dos Apóstolos narra o que aconteceu nos 35 anos que se seguiram à ressurreição e ascensão de Jesus aos céus. O último acontecimento narrado nesse livro bíblico provavelmente data do ano 63 ou 64 dC.

Neste trabalho, pretendemos estudar os três primeiros séculos do Cristianismo, e início do século IV, indo até o ano 325, um período em que os judeus e romanos muito perseguiram aos cristãos.

 

 

3.1  Perseguição

 

 

Como já foi dito anteriormente, o começo da expansão cristã produziu um antagonismo violento e cruel, não só pelos judeus, para quem o Messias foi enviado, como também pelos romanos, que dominavam militarmente todo o mundo conhecido da época, mormente as terras israelitas. Na verdade, a presença dos cristãos não agradava a ninguém, naquela época, como procuraremos explicar a seguir.

 

 

3.1.1  Perseguição de Judeus 

 

 

Os judeus perseguiam os cristãos por dois motivos: porque pregavam a Jesus como o Messias prometido nas Sagradas Escrituras, e por pretenderem dividir sua fé com os gentios.

Os judeus, como se sabe, esperavam pela vinda de um Messias que fosse um rei poderoso, um comandante parecido com o Rei Davi, que viesse libertá-los do domínio romano. Como Jesus não tinha esse perfil esperado, não foi aceito como o Messias, fato que produziu muita perseguição a Ele e a quem o seguisse. 

Outro fato que incitou os judeus contra os cristãos é que não praticavam o ritual judaico da circuncisão com os gentios. Pelo fato de não serem judeus e muito menos circuncidados, não era permitida a entrada desses gentios nas sinagogas. Eles continuavam a ser considerados imundos pelos judeus não-cristãos. 

Para efeito de bom entendimento do que estamos falando, considerava-se JUDEU toda pessoa que descendesse de uma das 12 tribos de Israel; as outras eram consideradas “gentios”.  Dessa forma, o mundo, para os judeus, se dividia entre os descendentes das tribos judaicas (herdeiros das promessas de Deus) e os gentios, que eram de outras descendências, e que estariam fora das promessas de Deus. 

Quando lemos Atos 15:1-21 vemos que a Igreja teve que lutar muito contra esses preconceitos. O “Concílio de Jerusalém” decidiu que os gentios não precisavam ser circuncidados, pois esse ritual pertencia apenas aos filhos de Israel.

 

 

3.1.2  Perseguição de Romanos 

 

 

Como já dissemos, Jesus nasceu numa época em que os romanos dominavam militarmente todo o mundo conhecido. Durante os primeiros séculos, o Cristianismo conviveu e se desenvolveu debaixo do domínio do Império Romano.

Para se ter ideia, o Império Romano compreendia as regiões ao redor do Mar Mediterrâneo, tendo como capital a cidade de Roma. O mapa abaixo mostra a extensão aproximada dessa ocupação.

A partir do Imperador Nero, os cristãos passaram a ser perseguidos pelo governo de Roma,  acusados de serem antissociais, desleais ao Imperador e ateus

Como explicação a essas acusações, basearam-se nas expressões de cumprimento (saudação) romanas sempre incluíam o louvor a um deus pagão, que não eram adotadas pelos cristãos.  Por exemplo: se um cristão pretendesse dar um “bom dia” ao seu vizinho, teria que invocar o nome do deus romano Júpiter, mais ou menos assim: “Bom dia a você, em nome de Júpiter!”  Como se negava a fazer isso, passou a ser chamado de antissocial. O judeu também não reconhecia o Imperador como um deus e por isso era considerados desleal, infiel. Pelo fato de destruírem seus ídolos, quando se convertiam ao Cristianismo, os crentes eram chamados de ateus, pois deixavam de ter “deuses”. Os crentes tentavam explicar que o verdadeiro Deus era invisível, mas os romanos insistiam em que qualquer pessoa sem algum ídolo em casa era um ateu.

Qualquer catástrofe (doença, má colheita, derrotas militares) que acontecessem aos romanos era considerada como ira dos deuses, e os culpados sempre passavam a ser os cristãos “ateus”, que desprezavam os deuses romanos, provocando sua ira.

Cruel como poucos, foi Nero quem provocou um grande incêndio que consumiu boa parte da cidade de Roma, colocando a culpa nos cristãos e jogando a ira dos romanos contra eles. 

 

 

3.1.3  Preço da desobediência: a morte

 

 

Durante esse tempo de perseguição, muitos cristãos fiéis foram mortos por causa da sua fé, podendo ser citados os bispos Inácio e Policarpo. 

Inácio, da cidade de Antioquia, foi morto por animais ferozes numa arena de Roma. Esse mártir foi a primeira pessoa a utilizar o termo IGREJA CATÓLICA, não como referência a uma Igreja que fosse de Roma, mas como referência a uma Igreja universal, internacional.

Policarpo, da cidade de Esmirna, foi discípulo do apóstolo João. Foi preso quando tinha 86 anos e só seria libertado se negasse o nome de Cristo. A resposta de Policarpo entrou para a história: “Oitenta e seis anos eu o tenho servido, e Ele nunca me fez mal; como posso agora negar o meu Salvador e Rei? Eu sou cristão!”  Por causa dessas palavras, Policarpo morreu queimado vivo numa fogueira.

No ano 250 o Imperador Décio decretou pela primeira vez uma perseguição total aos cristãos, atingindo todos os cantos do Império Romano.  Em 303, outra perseguição foi decretada pelo Imperador Diocleciano, que considerava os cristãos culpados por todas as tragédias que atingiam o império. Apesar da perseguição de Décio ter sido muito violenta, a de Diocleciano foi a mais feroz de todas, sendo queimadas todas as Sagradas Escrituras encontradas, milhares de cristãos foram encarcerados e muitos deles sofreram martírio.   

 

3.1.4  Martírio

 

Vale registrar aqui que martírio correspondia a um grande sofrimento decretado pelas autoridades, situação que culminava com a morte do réu. Dessa forma, mártires foram as pessoas que morreram por defenderem a sua fé religiosa.

A palavra mártir vem do grego e significa “testemunha”. Explicando melhor, eles teriam sido testemunhas dos milagres operados por Jesus Cristo e da ressurreição. O primeiro mártir conhecido foi Estêvão, apedrejado em Jerusalém (Atos 7:54-60).

 

 

3.2  Apologistas da Fé Cristã

 

 

As pessoas que não se conformavam com a perseguição generalizada aos cristãos, e passavam a defender as ideias do Cristianismo, eram chamadas de “Apologistas”. Essas pessoas chegavam a escrever livros na defesa dessas ideias. 

Muitos termos teológicos não encontrados na Bíblia, foram empregados inicialmente pelos apologistas. O termo “Trindade”, por exemplo, foi usado pela primeira vez por Tertuliano, quando quis se referir de uma só vez ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo.

Vejamos alguns desses apologistas:

 

a) Justino Mártir:  Ele dirigiu sua apologista ao Imperador Antônio Pio, no ano 153, através de duas obras a respeito, onde defendeu o Cristianismo das três principais acusações feitas pelos romanos:  serem ateus e desleais ao Imperador, e serem antissociais.  No livro “Diálogo com Trifo”, Justino defende a fé cristã diante dos judeus.

b) Tertuliano de Cartago: Dedicou toda a sua vida na defesa do Cristianismo, também através de um trabalho escrito. É considerado, ao lado de Justino, um dos maiores apologistas dos primeiros séculos. Ele nasceu e viveu em Cartago, na África, e escreveu muitas obras.

c) Quadratus, Taciano e Melito:  Esses três apologistas do Cristianismo não podem ser considerados tão iminentes quanto Justino e Tertuliano, mas tiveram seu papel nessa empreitada.    

     

 

 

4.  PRIMEIRAS HERESIAS NA IGREJA

 

Antes de seguirmos com esse assunto, achamos bom explicar um pouco o que seriam as heresias dentro da fé cristã, pois isso costuma gerar algumas dúvidas para as pessoas que começam a estudar a História da Igreja.

 

 

4.1.  Definição de Heresia

 

 

Para os evangélicos, uma definição simples seria dizer que HERESIA é qualquer doutrina que não esteja de acordo com o ensino da Bíblia. Para os católicos romanos, este termo significa qualquer opinião ou doutrina contrária aos dogmas instituídos pela Igreja Católica Apostólica Romana, mesmo que esteja fora dos ensinos bíblicos. 

Vejamos algumas heresias dessa época que estamos estudando:

a) O mundo não foi criado por Deus;

b) O Deus dos judeus, criador do mundo, não era um ser supremo;

c) Cristo não nasceu de  homem e  mulher (1 João 2:22 ; 1 João 4:2,3);

A seguir, vamos ver alguns grupos heréticos surgidos nos três primeiros séculos da Era Cristã, que conseguiram gerar muitas dúvidas nos crentes desse período.

 

 

4.1.1  Gnosticismo

 

 

O nome deste movimento vem do grego “gnosis”, que significa conhecimento, julgando que este mundo perverso é criação de Jeová, o Deus dos judeus. Para eles, a Salvação só seria conseguida através de um conhecimento especial superior às normas estabelecidas pela Bíblia. Negavam que Cristo tivesse vindo a este mundo como homem, colocando em dúvida a Sua morte e ressurreição. Dessa forma, a Salvação só aconteceria com pessoas cultas, inteligentes e espirituais, não tendo nada a ver com fé. Aí está configurada a heresia.

Alguns gnósticos chegaram ao extremo de defender que tudo é permitido ao corpo, pois o que interessa são as coisas do espírito. Porém, a Bíblia deixa bem claro que a Salvação é dada pela Graça, mediante a fé (Efésios 2:8) e nunca pelo conhecimento.

Resumindo, os três pontos principais do Gnosticismo, que se opõem à Bíblia, são:

a) O mundo da matéria é ruim;

b) A Salvação vem por meio do conhecimento;

c) Não existe o Cristo “homem”, sua humanidade, morte e ressurreição.

 

 

4.1.2  Docetismo

 

 

O título “Docetismo” vem do grego “Dokein”, que significa “parecer”, “assemelhar-se”.  Ensinavam que Cristo não possuía um corpo real, mas um corpo que parecia real. Como os gnósticos, os docetas também ensinavam que a matéria era má e que a crucificação e ressurreição foram apenas ilusões.

Aí está configurada a heresia. Se Jesus não tivesse sido humano como nós, não teria sofrido tentações, dor, fome, não teria morrido e Sua ressurreição não teria significado nada para nós. Esta heresia abalava os alicerces da fé cristã: a vida, a morte e a ressurreição de Jesus, o Filho de Deus (João 1:14).

O apóstolo João (1 João 4:2) prevenia os crentes a se afastarem dos hereges que negavam a humanidade de Jesus: “Todo espírito que confessa que Jesus Cristo veio em carne é de Deus.” 

Foram pessoas com ideias docetistas que mais tarde implantaram o Maometismo no mundo.

 

 

4.1.3  Marcionismo 

 

 

O fundador desse movimento foi Marcião, um próspero homem de negócios que, por volta do ano 140 dC, infiltrou-se na Igreja de Roma, de onde foi expulso por causa de suas ideias gnósticas.

Aceitava apenas uma parte do Evangelho de Lucas e algumas das epístolas de Paulo. Para ele, pelo fato do mundo ser mau não teria sido criado por Deus, mas por um deus inferior, o Deus do Antigo Testamento. Marcião achou-se no direito de escolher pessoalmente que livros deveriam fazer parte do cânon bíblico.

 

 

4.1.4  Montanismo

 

 

O fundador desse movimento foi Montano, que considerava seu ministério mais importante do que os acontecimentos do dia de Pentecostes. Vivia acompanhado de profetizas que “profetizavam no poder do Espírito Santo”.

O movimento pregava uma grande rigidez na disciplina, denunciando a infiltração de costumes mundanos na Igreja. Condenava qualquer tipo de prazer ou divertimento, pregando ênfase ao dom de línguas e profecias. A vida cristã deveria ser levada a sério. Também não permitiam um segundo casamento para os viúvos, pois consideravam o casamento como uma prática mundana. Aí está configurada a heresia.

Este movimento conviveu com a Igreja dos séculos II, III e IV, sumindo e reaparecendo de tempos em tempos, sempre apresentando uma nova roupagem. Bem mais tarde, os pensamentos do Montanismo proporcionaram o aparecimento dos monges da Igreja Católica Romana, que viviam separados do mundo.

 

 

4.1.5  Monarquianismo

 

 

O termo Monarquismo vem de monarca, significando um só rei e a heresia praticada está no seu ensino de que Deus é uma só pessoa, negando a doutrina bíblica da Santíssima Trindade, que crê num Deus que existem em três pessoas distintas.

A Trindade é assim definida pelo teólogo Strong: “Na essência do Deus único há três distinções eternas que são apresentadas a nós sob a figura de pessoas, e esses três são iguais.”

 

 

5. CRISTIANISMO, A RELIGIÃO DO IMPERADOR

 

 

O Imperador Constantino, também conhecido como Constantino I, como Constantino o Grande  e também como Constantino Magno, foi o primeiro governante romano a se converter ao Cristianismo. Conta a tradição que em 312, na véspera de uma importante batalha, ele teria sonhado com uma cruz e que nela estaria escrito em latim:  “Com este símbolo vencerás.”  

De manhã, um pouco antes da batalha, mandou que pintassem uma cruz nos escudos dos soldados e ele conseguiu uma esmagadora vitória sobre o inimigo, atribuída publicamente ao Deus dos judeus. 

Logo após a batalha, em Roma, Constantino conseguiu mostrar mudanças na sua fé, quando negou-se a oferecer culto ao deus Júpiter. Somente a partir de 317 Constantino passou a adotar abertamente símbolos cristãos, como o cristograma abaixo, que simboliza a primeira e última letra grega no nome de Cristo.   

 

 

5.1 Concílio de Niceia

 

 

No ano de 325 o Imperador Constantino reuniu todos os bispos das Igrejas Cristãs, na cidade de Niceia da Bitínia (Ásia Menor), com o objetivo de impedir que ensinos heréticos viessem a dividir a Igreja, pois pretendiam negar a divindade de Cristo, Sua eternidade, e defendendo que só o Deus Pai merecia culto. 

O documento que selaria o acordo entre os bispos de todas as Igrejas recebeu o nome de “Edito de Milão”, promulgado no ano 325 pelo Imperador Constantino, tendo força de lei semelhante aos decretos de hoje em dia.

O Concílio de Niceia adotou uma declaração de fé chamada “Credo de Niceia”, que foi assinada e aceita por todos, com exceção de dois bispos, que em seguida foram expulsos do Império Romano.

Imperador Constantino

 

CREDO DOS APÓSTOLOS

Creio em Deus Pai, Criador do céu e da terra; e em Jesus Cristo, seu filho unigênito, nosso Senhor, o qual foi concebido por obra do Espírito Santo, nasceu da Virgem Maria, padeceu sob o poder de Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e sepultado; desceu ao Hades; ressurgiu dos mortos ao terceiro dia; subiu ao céu e está sentado à mão direita de Deus Pai, Todo-Poderoso, donde há de vir a julgar os vivos e os mortos. Creio no Espírito Santo, na Santa Igreja; na comunhão dos santos; na remissão dos pecados; na ressurreição da carne; e na vida eterna. Amém.

CREDO DE NICEIA

Cremos em um só Deus; Onipotente, Criador do céu e da terra, de todas as coisas visíveis e invisíveis; e em um só Senhor Jesus Cristo, o Filho Unigênito de Deus, o gerado do Pai antes de todos os séculos (Deus de Deus), Luz de Luz, verdadeiro Deus; gerado e não feito, da mesma substância que o Pai, por meio do qual todas as coisas vieram a ser; o qual, por nós, os homens, e pela nossa salvação, desceu dos céus e se encarnou no Espírito Santo e da Virgem Maria e se fez homem e foi por nós crucificado sob Pôncio Pilatos e padeceu e foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras, e subiu aos céus e está sentado à direita do Pai e virá de novo, com glória, a julgar vivos e mortos; e do seu reino não haverá fim. E no Espírito Santo, o Senhor e Vivificador, o que procede do Pai (e do Filho), o que juntamente com o Pai e o Filho é adorado e glorificado, o que falou através dos profetas; e numa só Igreja Santa, católica e apostólica. Confessamos um só batismo para remissão dos pecados, esperamos a ressurreição dos mortos e a vida do século vindouro. Amém.

 

 

5.2  Um Imperador “CRENTE”? 

 

 

Nós encerramos este ciclo da História da Igreja com esse assunto. Lembramos que já não estamos mais dependendo dos registros bíblicos, que acabaram no primeiro século da Igreja Primitiva, quando foi montado e aprovado o cânon do Novo Testamento. A partir de agora, passaremos a depender de informações seculares, históricas, nem sempre confiáveis. 

O Imperador Constantino, como já foi dito, teve uma conversão causada por um sonho com a visão da cruz na noite de véspera de uma batalha.  A vitória foi creditada ao “Deus dos Judeus”, mas o Imperador não chegou a apresentar grandes testemunhos de conversão. Por mais de uma vez negou-se a cultuar deuses mitológicos em Roma, mas isso não bastava para fazer dele um cristão, um crente em Jesus Cristo. 

A essas alturas, a Igreja já estava controlada pelo Império Romano. A maioria das autoridades eclesiásticas (bispos) estavam em Roma, e são comuns registros de mudanças enormes na fé dos cristãos, nas atitudes dos seus mandatários, etc. Os procedimentos e atitudes viraram uma completa salada de fé cristã com os costumes pagãos de Roma. 

A pergunta é: O que representava Constantino para a Igreja?  Um presbítero, um pastor, um padre, um bispo, um simpatizante...?  Nós ficamos com a última opção. Ele dizia fazer parte do Cristianismo, mas não se envolvia diretamente, apenas nomeando esse ou aquele bispo de Roma para cuidar das coisas para ele.  Diríamos, inclusive, que a melhor opção seria dizer que Constantino era o DONO DA IGREJA.

Em 325, por exemplo, sua expectativa em convocar todos os bispos da Igreja para o Concílio de Niceia era decidir a respeito das opiniões diferentes que estavam aparecendo sobre as “verdades” do Cristianismo. Marcou o concílio, respeitou as decisões tomadas e pronto!

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

 

NOVAS EDIÇÕES LÍDERES EVANGÉLICOS. História da Igreja. 04 ed. São Paulo: IBETE – Inst.Batista de Educação Teológica, 1987.

WIKIPEDIA, A ENCICLOPÉDIA LIVRE. História da Igreja. Modificação da Postagem: 12/06/2013. Pesquisado em 28/08/2014. 

 

 

 

AUTOR DA PESQUISA

Walmir Damiani Corrêa

 

 

 

 

 

 

Por: Walmir Damiani Corrêa

Publicado em 13/09/2014

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