Entre a Fé e a Ciência

 ENTRE A FÉ E A CIÊNCIA

 

 
 
“Disse-lhe Jesus: Porque me viste, creste? Bem-aventurados os que não viram e creram.”  (João 20:29)
 
 
 
Procurando por Deus, gênios como Isaac Newton e Johannes Kepler fizeram grandes descobertas científicas. Quase todo mundo acredita que a fé e a ciência sempre viveram em pé de guerra. Alguns estudiosos do tema, no entanto, afirmam que isso não passa de mito. Na verdade, eles dizem que razão e religião sempre estiveram "amarradas" - muitas vezes com uma se alimentando da outra.
 
A história desse conflito é marcada por casos como o do filósofo Giordano Bruno, queimado vivo pela Inquisição em 1600, e o do astrônomo Galileu Galilei, recolhido à prisão domiciliar até sua morte, em 1642.
 
 
"A relação entre os dois lados é extremamente complexa, varia conforme a época e o lugar", diz o americano Ronald Numbers, professor da Universidade de Wisconsin. Numbers é o organizador do livro Galileo Goes to Jail - And Other Myths about Sciencie and Religion ("Galileu Vai Para a Cadeia - E Outros Mitos sobre Ciência e Religião"), uma coletânea com artigos de 24 historiadores que está sendo lançada nos EUA. Ele não nega que, ao longo da história, a Igreja censurou, reprimiu, condenou, mas aponta momentos de extrema aproximação — até de colaboração — entre os dois lados. A crença em Deus inspirou cientistas, enquanto instituições religiosas apoiaram pesquisas e universidades.
 
 

A IRA INQUISITÓRIA
 
 
 
Segundo o pesquisador americano, movimentos religiosos surgidos com a Reforma Protestante, no século 16, foram mais abertos a ideias científicas do que a Igreja Católica, cujo Tribunal do Santo Ofício (leia-se Inquisição) condenava qualquer questionamento de sua doutrina. 
 
Mas até a Igreja assumiu posturas contraditórias: por um lado, censurou teorias como a do “Heliocentrismo” (o Sol como centro do sistema solar), defendida por Nicolau Copérnico e Galileu; por outro, financiou os primeiros estudos de Astronomia. Galileu nunca deixou de ser católico e Copérnico era cônego, na época uma espécie de empregado administrativo do clero.
 
"Nenhum cientista perdeu a vida por causa de suas visões científicas", afirma Numbers. "Alguns, como Giordano Bruno, foram queimados pela Inquisição, mas por causa de suas ideias teológicas." De acordo com o pesquisador, Bruno defendia abertamente o “Heliocentrismo”, mas só foi parar na fogueira porque, entre outras heresias, duvidava da concepção da Virgem Maria e da identificação de Cristo com Deus. Ao afirmar que o Universo era infinito e continha vários mundos, também afrontou o dogma cristão de que os humanos são criações únicas, feitas à imagem do Criador.
 
 
 
O SOL NAS CATEDRAIS
 
 
 
Durante 600 anos (da Baixa Idade Média ao Iluminismo), a Igreja Católica financiou mais o estudo da Astronomia do que qualquer outra instituição. Quem afirma é o historiador da ciência John Heilbron, da Universidade da Califórnia. No livro The Sun in the Church ("O Sol na Igreja"), que é inédito no Brasil, ele afirma que muitas catedrais até serviram de observatórios. Foi numa delas — a Basílica de San Petronio, em Bolonha, na Itália — que, em 1665, o astrônomo Gian Cassini  confirmou que a órbita dos planetas é elíptica — tal como o alemão Johannes Kepler havia descrito décadas antes.
 
"A Igreja também apoiou universidades. Em 1500, havia 600 delas na Europa, e 30% do currículo cobria Geometria, Ótica e assuntos relacionados ao mundo natural", diz o historiador da Michael H. Shank, da Universidade de Wisconsin. "Se a Igreja medieval queria reprimir a ciência, ela cometeu um erro colossal ao tolerar e apoiar universidades." 
 
Esse apoio, no entanto, era seletivo, e também atendia aos interesses da Santa Sé. Ao fomentar o conhecimento, ela podia simultaneamente controlar o que era ensinado aos estudantes, enquanto censurava certos livros pelo suposto atentado à fé e à moral que eles representavam.
 
 
 
FILOSOFIA NATURAL
 
 
 
Muitos cientistas se inspiraram em crenças religiosas para conduzir suas pesquisas. Um deles foi o inglês Isaac Newton, que estabeleceu as bases da Ciência Moderna. Anglicano, o formulador da Lei da Gravitação Universal dizia que aprender sobre Deus é o primeiro passo para quem quer se dedicar à "filosofia natural", forma como a Ciência era chamada no século 17.
 
Kepler também encontrava motivação em sua fé protestante e acabou por descrever as leis da mecânica celeste.
 
"Assim como Kepler e Newton, diversos cientistas do século 17 diziam que haviam sido levados a investigar a natureza porque, assim, descobririam mais sobre Deus", diz o pesquisador Ronald Numbers. O argumento era simples: estudando-se o universo natural, aprendia-se tanto sobre Deus quanto lendo a Bíblia, já que Ele era o autor de ambas.
 
 

HEREGES, GRAÇAS A DEUS
 
 
 
Vamos conhecer, agora, três cientistas que pagaram caro por desafiar dogmas religiosos:
 
 
a)  Nicolau Copérnico (1473-1543)
 
 
A Igreja censurou sua ideia de que a Terra se move em torno do Sol, mas não o condenou. Nem teve tempo para isso, pois ele morreu horas depois de ver seu livro ser impresso. Não se sabe qual teria sido a pena aplicada a Copérnico.
 
 
 
b)  Giordano Bruno (1548-1600)
 
 
Bruno também defendeu o sistema heliocêntrico de Copérnico, mas sua situação se complicou por causa de outras heresias, pois ousou questionar, por exemplo, a concepção da Virgem Maria. Foi queimado vivo em Roma.
 
 
 
c)  Galileu Galilei (1564-1642)
 
 
O papa Urbano VIII deixou-o escrever sobre o “Heliocentrismo”, desde que fosse como mera hipótese. Mas Galileu referiu-se à teoria como verdade. Acabou no Tribunal da Inquisição e passou o resto da vida em prisão domiciliar.
 
 
 
 
 
 
 
AUTORIA
 
 
REVISTA SUPERINTERESSANTE
http://super.abril.com.br/religiao/inspiracao-divina-619226.shtml
 
 
 

FONTES PARA PESQUISAS
 
 
 
NUMBERS, Ronald L. Galileo Goes to Jail And Other Myths about Science and Religion. Harvard University Press, 2009.
 
HEILBRON, J.L. The Sun in the Church: Cathedrals as Solar Observatories. Harvard University Press, 1999.
 

 

Por: elevados.com.br

Publicado em 25/05/2020

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