Flávio Josefo

 FLÁVIO JOSEFO

(38 – 100 d.C.)
 
 
 
 
 
 
Dados Biográficos
 
 
O nome completo deste escritor, em latim, era Flavius Josephus, em hebraico era Yosef Bem Mattifyahu e em grego era Iósepos (Ιώσηπος). 
 
Ele teria nascido em Jerusalém no Ano 37 ou 38 d.C, filho de um sacerdote judaico chamado Matias, e descendente de uma linhagem de importantes sacerdotes e reis, onde teria recebido uma educação sólida na Torá. Sua mãe descendia da família real dos Asmoneus.
 
 
Historiador e apologista judaico-romano
 
 
Depois de se tornar um cidadão romano, Josefo passou a ser conhecido como um grande historiador e apologista judaico-romano, inclusive registrando in loco a destruição de Jerusalém, no 70 d.C., pelas tropas do Imperador Vespasiano, comandadas por seu filho Tito. As obras de Josefo fornecem um importante panorama do judaísmo no século I.
 
 
Formação Acadêmica 
 
 
Aos treze anos de idade, Josefo iniciou seu aprendizado sobre três das quatro seitas judaicas: saduceus, fariseus e essênios, optando aos dezenove anos de idade por aderir ao farisaísmo. Em sua obra, ele atribui aos zelotes, a quarta seita, a responsabilidade por ter incitado a revolta contra os romanos, que conduziu à destruição de Jerusalém e do Templo.
 
 
Vida política e Administrativa
 
 
Em 64, contando com 26 anos de idade, foi até Roma, onde obteve, por intermédio de Popeia Sabina, esposa do imperador Nero, a libertação de alguns sacerdotes hebreus condenados por Marco Antônio Félix, governador da Judeia . 
 
Em 66, ao regressar à Judeia, Jerusalém encontrava-se à beira da revolta, quando Josefo procurou dissuadir os líderes, num esforço inútil. Com receio de ser acusado de partidário dos romanos, refugiou-se no Templo, mas após a morte dos principais líderes da revolta, uniu-se aos sacerdotes do Sinédrio, que naquele momento aguardavam a chegada das tropas de Cássio para sufocar a revolta, o que não se concretizou.
 
O Sinédrio o enviou à Galileia, onde, na sua chegada, relatou a Jerusalém que os galileus estavam prestes a marchar sobre Séforis, cidade leal a Roma. O Sinédrio então o designou governador militar da província, fortificando-a. Ele defrontou-se com a oposição dos extremistas liderados por João de Giscala, que o acusavam de tender à contemporização.
 
 
 
Galiléia, governada brevemente por Josefo
 
 
Ele enfrentou as forças de Plácido, enviadas por Géstio Galo para a região, mas em 67 as tropas de Vespasiano tomaram Jotapata, quando Josefo, com 40 homens, escondeu-se em uma cisterna. Descoberto seu esconderijo, lhe foi proposto que se rendesse, em troca da sua própria vida e de seus 40 seguidores. 
 
Diante da situação adversa, Josefo teria sugerido aos seus seguidores um método de suicídio coletivo: tirariam a sorte e matar-se-iam uns aos outros, de três em três pessoas. Como tivessem restado apenas Josefo e mais um homem,  há quem veja o ocorrido como um problema matemático, por vezes designado como “Problema de Josefo” ou “Roleta Romana”. Josefo teria então convencido esse último soldado a se entregar às forças romanas que invadiram a Galileia, em julho de 67, tornando-se ele, então, finalmente, um prisioneiro de guerra. 
 
Em 69, Josefo foi libertado e, de acordo com seu próprio relato, teria tido um papel de relevo como negociador com as tropas de resistência durante o cerco de Jerusalém, em 70, após a queda da cidade. Ele foi bem aceito, assumindo o nome romano de seu protetor Flávio Vespasiano,  recebendo a cidadania romana, e  uma generosa pensão. 
 
Além disso, Josefo tratou de aumentar suas rendas, obtendo permissão de Vespasiano para, através de seus agentes, adquirir, a preço baixo, terras na Judeia confiscadas dos envolvidos na revolta,  honrarias que continuariam sob o reinado de Tito e de Domiciano.
 
Em 71, Josefo chegou a Roma junto da comitiva do General Tito, já como cidadão romano, passando a ser um cliente da dinastia dominante: os flavianos. Foi durante sua estada em Roma, e sob a patronagem flaviana, que ele escreveu todas as suas obras conhecidas.
 
 
Os casamentos de Josefo
 
 
Como a primeira esposa de Josefo morreu durante o cerco a Jerusalém,  Vespasiano arranjou-lhe um casamento com uma mulher judaica que também fora capturada no mesmo evento. Essa mulher o abandonou em seguida, 
 
Josefo, então, casou-se com uma judia de Alexandria, com quem teve três filhos. Apenas um deles, Flávio Hircano (Flavius Hyrcanus), sobreviveu além da infância. 
 
Josefo se divorciou posteriormente dessa sua terceira esposa e, no ano 75, se casou pela quarta vez, desta vez com uma judia de uma família distinta de Creta. Este último casamento produziu dois filhos, Flávio Justo (Flavius Justus) e Flávio Simônides Agripa (Flavius Simonides Agrippa).
 
 
Uma vida cheia de ambiguidades
 
 
Para seus críticos, ele nunca explicou satisfatoriamente seus atos durante a Guerra Judaica, como o fato de ele não ter participado do tal suicídio coletivo na Galileia, com seus companheiros. Também, não foi explicado por que, depois de sua captura, ele aceitou a patronagem dos romanos. 
 
Seus críticos, no entanto, ignoram o fato de que Simão Giora e João de Giscala, ambos zelotes extremistas e grandes oponentes de Josefo, permaneceram em Jerusalém e lideraram os combates contra os romanos em sua última etapa, preferindo — num momento de honestidade — a vida ao suicídio, e humildemente se renderam aos romanos. 
 
Aqueles que viram Josefo como um traidor e informante também questionaram sua credibilidade como historiador, desprezando suas obras como propaganda romana ou uma apologética pessoal, destinada a reabilitar sua reputação histórica. 
 
Mais recentemente, críticos vêm reavaliando as visões pré-concebidas de Josefo. Um argumento importante é a comparação entre os danos causados por seus atos e aqueles dos idealistas que reprovaram seu comportamento; enquanto Josefo teria sido responsável pelo suicídio de alguns soldados, pela humilhação temporária de um exército enfraquecido e pelo transtorno de uma esposa, os bons, leais, idealistas e corajosos, devotos e patrióticos líderes de Jerusalém tinham sacrificados dezenas de milhares de vidas à causa da liberdade; Tito e Vespasiano sacrificaram dezenas de milhares mais à causa da ordem civil, e até mesmo Agripa II, o rei da Judéia, cliente romano, que fez tudo o que podia para evitar a guerra, acabou supervisionando a destruição de meia dúzia de cidades e a venda de seus habitantes como escravos. 
 
Josefo foi, sem dúvida alguma, foi um importante apologista no mundo romano, para a cultura e para o povo judaico, particularmente numa época cheia de conflito e tensão. Sempre permaneceu, pelo menos a seus próprios olhos, um judeu leal e cumpridor das leis. Fez tudo o que podia para indicar o judaísmo aos gentis letrados, e para insistir sobre sua compatibilidade com o pensamento aculturado greco-romano. 
 
Constantemente ele se manifestou a respeito da antiguidade da cultura judaica, apresentando seu povo como civilizado, devoto e filosófico. Eusébio relata que uma estátua de Josefo teria sido erguida em Roma. 
 

Obras de Flávio Josefo
 
 
Suas duas obras mais importantes são “A Guerra dos Judeus” e “Antiguidades Judaicas”. A primeira serviu de fonte primária para o estudo da revolta judaica contra Roma (66-70), enquanto que a segunda serviu para contar a história do mundo sob uma perspectiva judaica. 
 
As “Antiguidades Judaicas”, escritas mais ou menos no ano 94, em grego, pretendia ser a história dos Judeus desde a criação do Gênesis até à irrupção da guerra da década de 60. Acrescentou, no final, um apêndice autobiográfico onde defendeu a sua posição colaboracionista em relação aos invasores romanos. 
 
O seu relato nesse livro, ainda que com um paralelismo evidente em relação ao Antigo Testamento, não é idêntico ao das escrituras sagradas. Há quem defenda que estas diferenças se devam à possibilidade de Josefo ter tido acesso a documentos antigos (que remontariam até à época de Neemias) que teriam sobrevivido à destruição do templo, embora a maior parte dos acadêmicos não dê crédito a tal suposição. Nesse livro, encontra-se o famoso “Testimonium Flavianum”, uma das referências mais antigas a Jesus, mas considerada por alguns estudiosos como uma interpolação fraudulenta posterior. 
 
Essas obras fornecem informações valiosas sobre a sociedade judaica da época, bem como sobre o período que assistiu a separação definitiva do Cristianismo do Judaísmo e as origens da Dinastia Flaviana, que reinou de 69 a 96 d.C. 
 
Escreveu um relato da “Grande Revolta Judaica”, dirigida à comunidade judaica da Mesopotâmia, em língua aramaica e depois, em grego, outra obra de cunho histórico que abarcava o período que vai dos Macabeus até à queda de Jerusalém. Este livro, “A Guerra dos Judeus”, foi publicado em 79, cuja maior parte é diretamente inspirada na sua própria vida e experiência militar e administrativa.
 
 “Contra Apião” é outra obra importante de Josefo, onde o judaísmo é defendido como religião e filosofia realmente clássica, em contraponto às tradições mais recentes dos gregos. O livro serve para expor e refutar algumas alegações antissemíticas de Apião, bem como mitos antigos, como os de Manetão.
 
Sua última obra, foi uma autobiografia, “Vida de Flávio Josefo”, que nos revela o nome do adversário (Justo de Tiberíades, filho de Pistos), ao qual essa obra vem responder e as censuras que lhe faz Josefo. Trata-se de uma obra cheia de lacunas, confusa e hipertrofiada, trazendo informações supostamente importantes sobre a vida de Josefo, que não encontramos em nenhum outro historiador da antiguidade.
 
Segundo Alberto Manguel, por volta de 1830, a obra de Flavio Josefo foi uma das mais usadas para leitura em voz alta nas famílias escocesas. Algumas décadas mais tarde, “Guerra Judaica” é indicada como uma das obras mais lidas na Inglaterra.
 
Flávio Josefo faleceu no ano 100 d.C., aos 63 anos de idade.
 
 
 
AUTOR DA PESQUISA
 
 
 Walmir Damiani Corrêa
www.elevados.com.br

Por: Walmir Damiani Corrêa

Publicado em 23/06/2021

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